O texto VIVER PARA REPRESENTAR, escrito por PETERSON XAVIER, recebeu da FUNDAÇÃO TELE FONICA, o premio MENÇÃO HONROSA, e está publicado no livro editado pela Fundação.
para ler o conto acesse:
http://www.risolidaria.org.br/util/view_texto.jsp?txt_id=200607010001CAUSOS DO ECA "HISTÓRIAS EM RETRATO"
TEXTO DE PETERSON XAVIER: “VIVER PARA REPRESENTAR”
MENÇÃO HONROSA NOS 2º CONCURSO “CAUSOS DO ECA”
FUNDAÇÃO TELEFONICA / PORTAL RISOLIDARIA
ANÁLISE FEITA POR
MV BILL
Da cabeça baixa na viatura policial, ao esplendor dos aplausos no palco. Da humilhação por estar à margem do suposto equilíbrio social à inserção por meio do que há de mais elevado no ser humano: a própria alma, a própria arte. Esse “causo” contado pelo Peterson pode ser aplicado em qualquer situação de superação do homem. Dele é que vem a transformação, tanto de vitória no ambiente de desigualdade, social como de vitória pessoal sobre as dificuldades da vida.. Peterson serve como exemplo em diversas facetas, é um vitorioso múltiplo. E é, acima de tudo, do indivíduo que vale a pena falar.
No entanto, é preciso atentar para o fato de que sua história é reflexo de um problema recorrente. Ela existe, porque há algo infelizmente maior e mais constante que ela. É aquilo que não se segue diante de umas das diretrizes mais fundamentais para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes brasileiros: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O "causo" contado ilustra a importância de se conhecer o que diz o ECA. O "causo" contado mostra que não basta conhecê-lo.
O ECA proíbe instituições para "menores" que funcionem sem condições para atendê-los. O ECA proíbe uma força policial, ou qualquer outro tipo de autoridade, que atente contra o bem-estar físico e intelectual da criança ou do adolescente. Acima de tudo, é um meio, uma linha, uma diretriz legal que permite e vislumbra o desenvolvimento social e cultural do indivíduo.
No início da história, quando o garoto sofreu sanções policiais,feriram o artigo 5° do Estatuto:. “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.
Nos maus-tratos da Febem, feriram também o artigo 91: "Será negado registro à entidade (de proteção e atendimento ao adolescente) que não ofereça instalações físicas em condições adequadas de habitabilidade, higiene, salubridade e segurança”.
Acima de tudo, feriram o conceito fundamental, descrito no artigo 3°, de que "a criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana (...), assegurando-se-Ihes todas as oportunidades e facilidades a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade”.
Feriram todas as palavras envolvidas, mas não a dignidade e a força de Peterson. E é aí que está sua grandeza e a grandeza do indivíduo diante dos "mecanismos" que regulam a sociedade. Sem tantos aparatos burocráticos ou anos de formulação, estrutura e pessoal, nessa grande máquina chamada Brasil, ele, uma peça, um homem, escreveu e conquistou, com a vida e as ações, o que é lei. Fez valer por si mesmo o que o ECA diz e que deveria ser seguido por todos, ajudado pela bela ação de uma professora, a Valéria Di Pietro, outro indivíduo com esforço pessoal, altruísta. As almas se juntam. As coisas acontecem.
Mostrou no palco e reverteu o processo macabro de invisibilidade social que vem junto à degradação moral e física do indivíduo e à perigosa desumanização da criança e do adolescente justamente por parte dos que deveriam zelar por eles.
Comprovou a importância da arte como um dos fatores que podem proporcionar essa visibilidade. E levou isso ao pé da letra ao se tornar mais do que visto, com direito a iluminação, cortinas abrindo-se e toda a atenção voltada para o Dom Quixote do cotidiano. Além de construir seu moinho de vento, provou que ele funciona e pode modificar o que não teve estrutura para educá-lo.
É assim que funcionam os exemplos, acima de tudo. Mais do que criar seguidores e repetidores das boas ações, é preciso educar para que todos cheguem até elas. Peterson usa da cultura teatral para isso. Ele reverte o processo tristemente fantástico e mostra ao Poder Executivo como agir para que as coisas sejam executadas na realidade.
O "causo" de Peterson mostra que é na valorização do indivíduo que se mostra a transformação mais eficaz e que qualquer ação no sentido dessa “melhora social" não pode deixar de esquecê-lo. Não existe a mudança coletiva, seja em movimentos sociais, na política, em ONGs, empresas ou na intelligetsia brasileira, se ela não começar no homem. Não vale subjugá-lo pelo “bem maior" se, ao chegar nesse bem, em qualquer momento, o ser humano foi ferido de alguma forma. Porque aí a "melhora" não foi completa nem justa e a luta por um mundo melhor não valeu de nada.
MV BiII é rapper, autor do livro e documentário Falcão - Meninos do Tráfico, em parceria com Celso Athayde, e da obra Cabeça de porco, com Athayde e Luiz Eduardo Soares. É integrante da Central Única das Favelas (Cufa).